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Vá pra rua

Algo nos últimos dias vem provocando-me um ligeiro desconforto. É uma mistura de perda de esperança com vontade de revolta. Pessoas, as quais conservo algum apreço e admiração estão cegas. Há um discurso covarde e distante da realidade que as vem seduzindo, no seu escopo, partidos, intelectuais e figuras públicas. Tais figuras assumiram para si que as manifestações, o levante antifascista e as forças de igualdade racial são perigosas no momento e têm que esperar. Ora quem espera o afago do opressor se não o corrompido?


E assim, elas entoam a bandeira sobre a vida para se opor a essa efervescência. Ancorados na fatal pandemia do COVID, contra-atacam. Não quero aqui minimizar a doença. Para todo o efeito, a COVID mata. Sua proliferação em aglomerações é real. Entretanto, o que também se deveria saber é que a ausência de amparo público faz com que essa realidade se torne potencializada.

O vírus - falta de zelo estatal- vem nos prejudicando e fomentando ainda mais o poder da COVID.


As mortes crescentes têm como impulsão a má gestão pública do nosso executivo regida pelo presidente Jair Bolsonaro. São mais de 40 mil brasileiros que perderam as suas vidas, sem nenhuma propaganda de conscientização, sem nenhum voto de luto, sem nenhum 600 reais na conta. Esse descaso atinge aqueles que mais precisam e mais precisaram do resgate estatal: os os pobres, a classe produtiva, a sociedade do consumo, que você pode intitular da maneira que quiser, mas, esses são aqueles que nunca fizeram quarentena. Não tiveram direito a fazê-la.


Os menos favorecidos permaneceram – e ainda permanecem - ocupando seus postos de trabalho, expondo-se ao vírus sem a menor condição de uma estabilidade financeira que possibilite a estadia em casa. Isso se deve à politica e à economia, amordaçadas e liberais do senhor Paulo Guedes. Atônito a medidas interventivas, resiste ao auxílio digno de subsistência, norteando um auxílio estabanado, o qual, pouco pagou e muita confusão gerou.


Com isso, a quarentena nunca atingiu quem realmente precisa. Isso é algo que a sensibilidade dos meus estimados não consegue compreender. A diferença entre um ônibus lotado para o trabalho e uma rua lotada para protestar é que a segunda há finalidade de mudança.


Não os culpo, opero de certo modo igual em alguns aspectos, pertenço à faminta classe média, que é o espectro em que se vocaciona a poíitica moderna liberal. Isto é, o espaço de fala, de articulação, de construção de soluções, laborando uma ideologia polida.


Ideologia esta, composta em sua espécie, principalmente, por: advogados, candidatos, burgueses, intelectuais, artistas, jornalistas entre outras atividades que constroem, através de uma razão funcional, a mesma sintonia de pensamento: o da preservação, o do não é o momento.


Para além desse espectro, é necessário o esforço de sensibilidade, compreender o lugar do outro. É confortável assumir a posição do discurso pró-vida quando a sua subsistência está garantida, quando se tem acesso à informação, a saneamento básico, quando não se expõe ao vírus além de um domingo.


A legitimidade que a classe burguesa representada pela classe média perdeu nas manifestações de domingo, vem provocando uma espécie de ressentimento ao construir um discurso moderador. Atacam os movimentos pela ausência de partido, de organização institucional. Entendem, assim, que só sua forma consagrada liberal é o meio para atingir o fim. Racionalizam comparações com o ano de 2013, em que o cenário era totalmente diferente para cristalizar uma falsa preocupação, revestida de amargura.


Egoístas. Só enxergam a centralidade naquilo que são provedores, corrompíveis à glória. Trancam-se nas suas casas, lutando contra as manifestações em lives, em #fiqueemcasa, cursos de yoga. Enxergam na política, no lutar, um movimento seccional atrelado a eleições, ao estruturalismo partidário e, sobretudo, a oportunidade, afagando com isso a realidade caótica numa busca pela compreensão dita, como racional, substanciando assim a anestesia social.


Entendam que as pessoas que foram às ruas nessa frente contra descaso não estão articulando seus pensamentos na lógica da democracia burguesa, elas nem têm afinidade com isso, nem com os trâmites institucionais. O que se tem de concreto é que se vai à rua, porque existe em qualquer situação, a sensação de esgotamento, somado à falta de dinheiro e agravado pela oportunidade de nunca ter ficado em casa.


Assim a cada dia esgota-se mais a fé do povo brasileiro. A cada dia, esgota-se mais a dispensa. A cada dia, esgotam-se mais os leitos de UTI. A cada dia, esgota-se a nossa paciência.


Não venha pedir para os outros o refino de percepção que você julgar ter. Não existe só uma via para qual se alcançar os objetivos. É um esforço de humildade reconhecer a força do diferente. Vá Para Rua ou fique quieto.






Haron Francelin


Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.




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