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Vou de Boulos e te explico o porquê!

Inicialmente destaco que esse se trata de um texto de campanha, um texto de militância. Trago aqui minha preferência política que envolve meus conhecimentos sobre o tema, mas também uma infinidade de vivências e inclinações particulares. Deixo claro devido a admissão de subjetividade, evitando confusões sobre temas de pesquisa.


Em 2020 votarei na Chapa Boulos e Erundina (PSOL) para eleição à prefeitura de São Paulo. Escrevo esse texto levantando alguns pontos que me levaram a essa decisão. Não pretendo aqui esgotar a discussão, nem apenas reforçar votos já definidos. Quero descrever argumentos que auxiliaram em minha decisão e convido outros eleitores a fazerem o mesmo, permitindo troca de ideais, afinal a política é feita no coletivo.


O primeiro ponto importante a ser esclarecido é que Boulos não é meu político de estimação (sabe-se lá o que isso quer dizer). Falo isso, pois observo em discussões políticas tentativas de finalizar uma argumentação acusando o eleitor de defender determinado político acima de toda e qualquer suspeita. Ainda que acredite que este argumento seja um simplismo contrário à construção política efetiva, deixo claro que não estou defendendo o candidato sobre qualquer suspeita, e caso seja eleito, serei o primeiro a acompanhar de perto seu mandato e realizar as cobranças cabíveis.


Sobre as críticas inclusive, me lembro da entrada de Boulos no PSOL já em 2018. Há algum tempo voto em candidatos do PSOL, sempre com ponderações, tentando manter a coerência em relação as minhas preferências internas no partido. Embora fosse totalmente favorável à entrada de pessoas de movimentos sociais fora da organização partidária, olhava com desconfiança a entrada de Boulos e sua candidatura à Presidência logo no primeiro ano. Meu receio era o partido se tornar uma legenda de aluguel para simples palanque individual do candidato (com sua saída logo após o pleito eleitoral). Apesar de ele ter atingido um público que o PSOL nunca conseguira anteriormente, o resultado da eleição pior da história (numericamente). Mas, o que eu temia não ocorreu: Boulos se manteve no partido e participou dos processos internos necessários a concorrer a um cargo de prefeitura, candidatura que considero mais plausível. Mas, vamos aos tópicos que fundamentam minha escolha entre os candidatos que pleiteiam a prefeitura:


Os Estereótipos: É necessário combater alguns estereótipos para entendimento e defesa da campanha de Boulos. Destaco dois principais: primeiro se relaciona ao PSOL, um partido de esquerda, que em sua própria nomenclatura traz o Socialismo como uma de suas bandeiras ideológicas. É saudável entender pontos básicos relacionados ao conceito. Não é necessário ser especialista em Karl Marx para saber que socialismo não defende uma sociedade “Homogênea”, do mesmo modo que não se pode acreditar que os comunistas (não) comem criancinhas. O Socialismo se refere a uma doutrina política/econômica que defende a reversão do controle dos meios de produção. Não me aprofundarei, mas em uma sociedade de classes, da qual a doutrina se refere, ou você detém os meios de produção, ou é obrigado a vender mão de obra para quem os possui. Isso coloca a maioria absoluta da população em grau de exploração e a doutrina defende coletivização dos meios de produção. Outras situações estão envolvidas como o ideal de abolição da propriedade privada, porém, não há espaço aqui para essa explicação, até porque minha pretensão é, modestamente, apenas combater o “alarde” sobre a doutrina.


Outro argumento que cria “pânico” em relação ao socialismo se refere a governos autoritários que utilizaram tal nomenclatura para conquista e manutenção de poder. Primeiramente, destaco que nenhum exemplo poderia ser descrito pela efetividade da aplicação da doutrina ideológica. Também não vamos nos esquecer do contexto de Guerra Fria, na qual se desenvolveram os principais exemplos relacionados aos países “Socialistas”. Mas se mesmo assim, se ainda houver desconfiança/esperança de que o PSOL vai assumir o governo e fazer uma revolução, esqueçam. O PSOL é um partido com objetivos eleitorais, integrado ao sistema partidário democrático. Lembro do estudo de Przeworski (1989) que observando movimentos socialistas europeus do Século XX, argumenta que a decisão de participação na lógica eleitoral, resulta na transformação da lógica revolucionária, buscando efetivação de reformas.


Outro estereótipo se relaciona a ligação de Boulos com o movimento MTST . Parte da classe média (principalmente paulistana), prioriza o direito à propriedade privada, direito fundamental reconhecido constitucionalmente, mas ignora seus preceitos legais de função social. É como se uma propriedade não estivesse regimentada sobre princípios legais do local na qual está inserida. Muito poderia (e deveria) ser problematizado sobre distribuição de terras e moradias, mas não teremos tempo neste presente texto. O importante aqui é o entendimento do MTST, um movimento que luta por moradia social, busca um direito de ocupação de espaços, cujo a função social não está sendo efetivada, seguindo preceitos legais já existentes! Poderia haver longo debate sobre jurisdição, mas essencialmente parece haver inversão na defesa relacionada à cidadania: defende-se o dono do prédio abandonado no centro, que não é utilizado apenas para especulação imobiliária, mas não as centenas de famílias que o ocupam para a garantir o direito mínimo FUNDAMENTAL de moradia. Para evitar críticas rasas sobre o Movimento é necessário saber seus preceitos legais e suas diretrizes, além de criar empatia, afinal esse país se fundamenta em direitos negados desde sua fundação.


Em suma. PSOL não vai instaurar o Socialismo no Brasil (muito menos em São Paulo) e Boulos não “Invadirá sua casa”.


O Partido: Como já foi falado o Boulos está concorrendo à prefeitura pelo PSOL. O partido nasceu há 15 anos atrás, de uma dissidência interna do PT, após discordância da proposta do primeiro ano de governo Lula a reforma da previdência. Para seus fundadores o partido de origem estava seguindo um caminho “perigoso” de afastamento de seus ideais. O partido cresceu após novas dissidências petistas que justificaram que o PT seguia objetivos de manutenção do poder para além dos aspectos de programa político.


Já citei a defesa da ideologia do partido, mas agora quero destacar outros pontos. Inicialmente o PSOL é um partido “pequeno”, mas que mantém representação legislativa desde sua fundação. No Congresso Federal, o partido se configura como “pequeno notável” por atuação em propostas legislativas, mas também em comissões, proposta de emendas e Ações Diretas de Inconstitucionalidade (uma breve pesquisa no Google já revela isso). O partido, diversas vezes, teve seus candidatos entre os ganhadores de prêmios por atuação legislativa . O PSOL ainda não possui representação executiva em cidades de grande porte, o que faz a candidatura de Boulos atrativa pelo caráter de mudança (se sua preocupação é experiência, fique tranquilo, pois sua Vice tem de sobra).


Discordo de acusações sobre o PSOL ser “braço” do PT, e observo sua origem (ruptura do partido) e sua oposição no Congresso, durante os anos de governo petista. Isso não quer dizer que não há defesas conjuntas (como no combate a PEC 241), até por aspectos ideológicos.

Destaco também que os candidatos do PSOL não negam o partido, manifestação importante, pois hoje observa-se aquela tentativa de individualização da política propondo independência, algo que já me opus no texto Ano de Eleição. Não caia nessa! Os partidos seguem fundamentais nos processos eleitorais e decisórios.


- Propostas – Programa: Li programas dos outros candidatos e me surpreendi positivamente pelos detalhes das propostas nesta eleição . Sobre o programa de Boulos, além de importantes detalhamentos, segue minhas preferências ideológicas. O programa está bem dividido e fundamentado. Há ações que envolvem diretrizes (Apoio a programas de moradia popular e fortalecimento das políticas de participação social) e propostas especificas (ampliação de programa de renda solidária, revogação do SampaPrev, auditamento de contratos no transporte, retomada do programa de “Braços Abertos”).


O programa atende bem os requisitos atribuídos à prefeitura como resolução de problemas locais e organização de políticas como saúde e educação básica. Propõe retomar atividades anteriores e novas alternativas para a cidade como o fortalecimento de cooperativas fomentando a economia periférica e a possibilidade futura de tarifa zero para setores na mobilidade urbana. A campanha teve abertura para propostas da população, o que potencializa a participação social em um possível mandato.


- Vice: Vovó Erundina é um caso à parte à campanha. Inicialmente destaco que não gostei de sua Candidatura à Prefeitura em 2016 encabeçando a chapa do PSOL. Campanha eleitorais são muito desgastantes e àquela altura as perspectivas eram baixas. Porém, como vice, em uma chapa inovadora para o partido e encerrando uma trajetória muito bonita de militância em lutas sociais (e políticas), achei extremamente relevante.


Precisaria de um Blog inteiro para descrever a trajetória de luta em defesa da população em vulnerabilidade realizada por essa senhora. Vovó Erundina é um símbolo da esquerda brasileira e sua história dispensa asteriscos.


Destaco apenas alguns de seus feitos na política institucional: Vereadora, Dep. Estadual e Federal, Erundina também foi prefeita na capital paulista (1989 – 1993). Foi uma das primeiras gestões do PT no Executivo e envolveram muitos desafios. Sua equipe de gestão foi fantástica! Algo nunca visto ou reproduzido na política nacional com nomes de relevância intelectual: Paulo Freire, Hélio Bicudo, Paul Singer, Marilena Chauí foram alguns de seus secretários (tenho certeza de que alguns desses nomes você já ouviu falar!). Em sua gestão, houve a implementação de alguns programas inovadores como o Movimento de Alfabetização; Política de Habitação Autogerida e tentativa de um IPTU progressivo (que poderá ser retomado efetivamente na gestão Boulos). Em infraestrutura, ocorreu a reforma no autódromo (o que permitiu o retorno da F1 a SP) e construção do Sambódromo do Anhembi - polo de feiras e ações culturais como o carnaval de São Paulo.


Verdade que sua aprovação final não foi tão positiva, mas seu governo enfrentou grande resistências da elite na época e algumas batalhas para aprovação legislativa. Seu maior rival da época foi Maluf e a história revelou os méritos de Erundina.


- Olhar Periférico: São Paulo é a cidade mais rica do país, porém, seus dados de desigualdade são igualmente gigantescos . Evidente que a pobreza, a falta de estrutura e a dificuldade de acesso a serviços públicos afeta diretamente a população em maior vulnerabilidade. Entretanto, os problemas sociais que perpassam a cidade refletem (mesmo que indiretamente) em grande parte dos seus moradores. Desse modo, até a visão mais egocêntrica e elitista deveria ser empática aos problemas que envolvem a periferia.


O prefeito tem papel fundamental na resolução de problemas sociais locais. Boulos observa demandas periféricas muito antes do próprio pensamento a candidatura para a prefeitura, por isso propõe alternativas relacionadas à geração de renda, mobilidade urbana e educação básica por exemplo, colaborando com a população que mais necessita.


- Possibilidade de Vitória/ Campanha: Boulos possui reais chances de vitória. O candidato aparece, até o presente momento, em terceiro nas pesquisas eleitorais, com ascensão constante desde o início da campanha. A dispersão dos votos pela quantidade de candidatos e ausência de um “favorito” também pode ser fator importante na reta final.


Há uma real possibilidade de vitória da esquerda na capital paulista, para além do centralismo petista neste campo institucional ideológico. Não nego o protagonismo e importância do PT no campo da esquerda, ainda com figuras fundamentais no cenário local e nacional, porém, não preciso destacar o quanto ele se afastou de alguns redutos e bases eleitorais nos últimos anos. Boulos e o PSOL surgem como alternativa. Um partido muitas vezes acusado de ter “pouco acesso à periferia,” faz campanha que une setores de influência cultural e acadêmica, com movimentos sociais de base. Sua campanha online também é destacada pela experiência desde a candidatura de 2018.


A ida do PSOL ao segundo turno é possível, criando variáveis para uma possível eleição. Se o desejo de mudança é recorrente, vamos nos basear em mudanças propositivas realmente significativas para nosso cenário institucional. Sair de São Paulo não é a solução, dessa forma, fique vai ter Boulos!

Referências Bibliográficas


PRZEWORSKI, A. Capitalismo e Socialdemocracia. São Paulo, 1989.

[1] Movimento dos Trabalhadores Sem Teto

[1] www.congressoemfoco.uol.com.br

[1] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/eleicoes/2020/noticia/2020/09/29/eleicoes-2020-o-que-dizem-os-programas-de-governo-dos-candidatos-a-prefeito-de-sp.ghtml

[1] https://www.nossasaopaulo.org.br/category/mapa-da-desigualdade/

Heythor S. Oliveira

Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem

ilustraçao capa : google apps


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