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Youtuberização da ciência ou popularização do conhecimento científico?

Desde que a epidemia do coronavirus emergiu em escalas pandêmicas temos experimentado os limites e potencialidades dos discursos e técnicas científicas. Obviamente que as inúmeras dimensões do que condensamos como "saber científico" estão sob o signo de outro aglutinado categórico: o das "ciências da saúde e as biomédicas". Ou seja, devido à própria dimensão da atual emergência sanitária, são as arenas científicas da saúde e da biomedicina que mais tem "representado" esse tipo de prática de conhecimento. É do conhecimento clínico, laboratorial, médico ou terapêutico, com base em evidências científicas, que mais se espera o advento de um tratamento eficaz e efetivo contra o coronavirus.


Ao mesmo tempo, a pandemia vem mobilizando e influenciando práticas teóricas e metodológicas de muitas outras dimensões da produção acadêmica e da pesquisa científica. O caso das ciências sociais e humanas nesse sentido é exemplar desses <movimentos de contaminação viral>. Isto é, as ciências sociais possuem formas diferentes de operar e produzir conhecimento em comparação com as áreas "biomédicas"; entretanto, têm elaborado inúmeras análises e intervenções sobre a <realidade pandêmica>.


É dentro desse contexto epidêmico que gostaria de discutir, aqui nessa breve reflexão, a figura do intelectual e do pesquisador e pesquisadora pública. E essa discussão necessita tocar a) nos pontos da responsabilidade relativa aos discursos científicos que circulam pública e popularmente, b) na questão dos "meios" que fazem esses múltiplos conhecimentos científicos circularem e c) nos limites e possibilidades de "tradução" da "linguagem" tecno científica para produção de conhecimento popular crítico e para elaboração de políticas públicas.


Como esse texto é uma primeira tentativa de propor um debate a partir das relações entre os pontos acima elencados, não vou ter condições de discuti-los integralmente. Mas, a partir das minhas recentes experiências em debates públicos enquanto sociólogo e pesquisador social, quero pensar um pouco o tópico dos "meios de divulgação científica". Já adianto meu argumento: não é necessário aos e às intelectuais - sejam pesquisadores das ciências da saúde, biomédicas, exatas ou sociais - estarem nos assuntos mais comentados do twitter, ou nos vídeos mais indicados do YouTube, para serem considerados como agentes importantes nos debates públicos.


Nos últimos meses tenho recebido muitos convites para participar de aulas públicas, "lives", discussões em grupos de pesquisa, reuniões acadêmicas abertas, reportagens, entrevistas e podcasts sobre assuntos relacionados às "pessoas com deficiência". Há quase dez anos tenho focado meus esforços de pesquisa sociológica na compreensão do fenômeno multifacetado que é a noção de deficiência e das práticas técnicas e científicas que são consideradas especialistas no assunto. Devido a essa configuração "poliédrica" e "polissêmica" que é a categoria da deficiência, o pesquisador social que busca se debruçar na temática precisa lidar com os conhecimentos e domínios hegemônicos das áreas médicas, biológicas, terapêuticas e educacionais. Então, o discurso e práticas dessas áreas de conhecimento hegemônico sobre a deficiência passam a ser um objeto de pesquisa para o sociólogo. Então, desde minha graduação, passando pelas pesquisas de mestrado e agora de doutorado, sempre busquei me relacionar com os saberes e práticas médicas, terapêuticas e educacionais sobre a deficiência. Ao mesmo tempo, jamais foi somente o interesse nessas áreas enquanto possíveis objetos de estudos sociológicos que tem me levado a criar interfaces com profissionais e pesquisadoras da saúde ou da educação. Inúmeras vezes foram essas mesmas áreas, essas profissionais que estão nos cotidianos dos múltiplos espaços de intervenção acadêmica, de produção científica e de práticas profissionais que demandaram meus conhecimentos sociológicos parciais sobre deficiência.


Esse tipo de movimento entre as áreas de conhecimento a partir de um objeto que tem múltiplas formas, sonoridades e frequências - como é a deficiência - obriga os e as pesquisadoras a "traduzirem" suas linguagens específicas para públicos e demandas distintas. Assim, tenho tido a impressão que, até mesmo pelo atual contexto epidêmico, alguns tópicos e assuntos tem ganho destaque nas cenas e debates públicos. Esse é o caso da deficiência e dos e das pesquisadoras que, de alguma maneira, se interessam pelo e investigam o tema.


É dentro desse espectro que sugiro que essas múltiplas formas públicas de intervenção científica na realidade social, antes de mais nada, são configurações políticas e culturais. Ou seja, o próprio conhecimento e práticas científicas são instâncias de múltiplas frequências e que não se transmite de forma neutra no tempo e espaço. Com isso quero provocar os e as pesquisadoras a pensar até que ponto temos que disputar bolhas e nos adequarmos aos "meta-jogos" dos algoritmos das redes sociais como ferramenta de divulgação e popularização de discussões científicas e políticas. Recentemente estamos caindo numa certa melodia de uma "flauta mágica" que tende a coligar as pesquisas públicas das universidades brasileiras a espaços privados de divulgação científica.


Quero dizer que cada vez mais os e as pesquisadoras tendem a considerar que seu trabalho somente será atingido por uma população mais ampla e além da academia por meio de páginas no Facebook, canais no youtube, perfis no Twitter. Ao mesmo tempo, não consideramos que essas plataformas tem uma localidade política e econômica e que, por isso, não permitem a divulgação ou amplificação de qualquer discussão para qualquer público. Não há neutralidade na forma como os produtos das mídias digitais circulam nas redes. Isso tudo, por sua vez, gera uma confusão com relação àquilo que os pesquisadores conseguem traduzir de suas linguagens técnicas e científicas em espaços de debates públicos.


Primeiro que o debate público é aquele que o público demanda. Se quem faz alguma pesquisa pode entrar com elementos críticos no tópico que se demanda discussão, ótimo! O debate público se estabelece de alguma forma. Segundo o debate público não possui uma só modalidade e modulação. Não exatamente um debate é público por estar sendo transmitido ao vivo em uma grande plataforma digital. Nesse ponto, há toda uma questão de acesso às redes digitais que influenciam essa própria ideia que, a partir da internet, temos debates mais públicos e democráticos.


Então, temos que nos atentar a essa lógica de uma certa "youtuberização" do conhecimento público produzido nas universidades públicas brasileiras; ao mesmo tempo que temos que nos preocupar, enquanto pesquisadores e pesquisadoras que recebem verbas públicas para suas investigações, com a criação de interfaces críticas entre as comunidades científicas e as não científicas, entre as linguagens acadêmicas e as dos movimentos sociais populares. Acredito que somente assim conseguiremos explorar o teor sócio-político que está no cerne da produção do conhecimento científico. E isso dificilmente estará no vídeo mais recomendado do youtube.

Nota: desde a confirmação da situação epidêmica no Brasil no começo de 2020, variadas localidades que concentram os saberes e práticas das ciências sociais passaram a fomentar a participação dos pesquisadores e pesquisadoras da área para pensar o momento atual. Obviamente que isso se dá por causa da histórica interface, seja ela política ou científica, entre as áreas das ciências sociais e das ciências da saúde ou Ciências biomédicas. Para ver como os Sociólogos, Antropólogas e cientistas políticos vem pensando e intervindo nos momentos de emergência sanitária, ver: Boletim Cientistas Sociais e o Coronavirus (ANPOCS) ; Boletim Coletividades – Sociologia na Pandemia (PPGSociologia/UFSCar) ; Blog GEICT/UMICAMP ; blog antropoLÓGICAS EPIDÊMICAS


nota: no texto “De volta para o futuro? O “retorno à normalidade” e o “pós-epidemia”” trago um pouco essa discussão de como as pessoas com deficiência estão sendo colocadas em evidência nesse momento epidêmico; além de apontar discussões das ciências sociais que também estão observando como a deficiência e os contextos epidêmicos se informam mutuamente

Marco Gaverio



é sociólogo nas horas vagas e fã de Ryan Reynolds.


ilustraçao capa : geek360

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